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terça-feira, 10 de abril de 2012

Euro 2012

Eu não gosto de futebol. Não gosto, nunca gostei. Não gosto de clubes, nem de jogadores, nem de ver a seleção (bom, às vezes vejo o Portugal, mas apenas para socializar, nunca veria um jogo em casa sozinha, por iniciativa própria)... nada.
Fico meia sem jeito quando me perguntam de que clube sou. E fico sem jeito não com a pergunta mas com a reacção das pessoas, à minha resposta, sempre igual: eu não tenho clube, não gosto de futebol. Não gostar de futebol para a maioria das pessoas é algo completamente inaceitável, estranho, inacreditável. Pois bem, eu sou um alien do desporto.
Quando hoje li no facebook uma mensagem eufórica Já só FALTAM 59 DIAS para começar o Euro 2012! O meu pensamento foi: Oh não!!!! Lá vou ter que levar com aquela euforia desmedida que deixa toda a gente obcecada e completamente fora de si com qualquer jogo que passe na televisão.
Quando andava a tirar o curso, a minha professora de Literatura (uma pessoa que admiro muito) contou-nos que o pai dos filhos dela era economista. E que a dada altura se perguntou como é que poderia estar casada com um economista. Separou-se e conheceu o homem da vida dela, um homem que lê. Tal como ela. Contou-nos também que não tinha amigos que não lessem. Que não se conseguia interessar por pessoas que não lessem.
O mesmo acontece-me a mim. Tenho um mundo muito próprio, gostos não muito comuns. E são muitas as vezes em que olho as pessoas que me rodeiam e penso que não têm nada a ver comigo. Mas tenho de conviver, e até gosto das pessoas com quem me dou. Mas não têm nada a ver comigo. Não sou inteiramente eu, porque sei que com essas pessoas não posso falar dos meus gostos pessoais, não posso partilhar o meu entusiasmo por algo que não lhes diz nada.
Para além da minha irmã, com quem tenho uma ligação muito forte, existiu uma única pessoa que era "igual" a mim. Desde aí nunca mais conheci niguém com quem me idenficasse realmente.
Tenho em casa 3 homens. O mais velho completamente fanático pelo Benfica (Oh God), o do meio que vibra com o "desporto rei" e que não pára de me lembrar o quanto queria andar numa escolinha de futebol e o mais novo que já corre atrás de uma bola. Muitas vezes cresce em mim uma desilusão, e uma pergunta constante (não podiam "apenas" gostar de livros?) e sinto-me isolada, mais uma vez num mundo à parte, porque existem tantas mulheres que amam futebol, e que se sentam a ver os jogos com os maridos, que torcem fielmente por um clube, que discutem afincadamente os cantos e os foras de jogo, etc. E eu não percebo nada daquilo. Dá-me vómitos. E irrita-me profundamente ouvir os relatos. Não dá. Não vou lá de maneira nenhuma. E às vezes apetecia-me discutir um livro, um filme, uma exposição, um lugar a conhecer... e é aí que cresce a minha solidão. 


E para que se saiba que não moldo (totalmente) os meus filhos àquilo que sou, vou inscrever o meu filho mais velho numa escolinha de futebol e por mais que pareça estranho até estou entusiasmada por saber o quanto isso significa para ele. Sou sincera, rejeitei a ideia inicialmente. Durante muito tempo parecia-me inconcebível que ele viesse a jogar futebol, sentia-me frustrada e impotente e dizia ao M. que um filho meu nunca seria jogador de futebol (sonhei tanto com um escritor, um pintor, um cineasta ou um fotógrafo). Pensei muito no assunto dias e noites a fio, até que um dia acordei e consegui aceitar. E consegui compreender que não há nada de mal em se fazer o que se gosta. E que a minha mãe que tanto queria uma médica ou uma advogada, nunca me colocou uma única restrição relativamente àquilo que eu queria fazer da minha vida. Sempre aceitou as minhas escolhas, tentando orientar-me da melhor forma, mas sempre respeitando as minhas decisões. Com um exemplo destes em casa como podería eu reprimir a vontade de um filho meu?

3 comentários:

ana disse...

Sim, percebo-te mesmo porque eu também detesto futebol e também eu sinto que vivo num mundo muito próprio.
Em relação a essa aceitação só posso dizer uma coisa: a isto se chama humildade e maturidade.

Bonito de se ler. :)

Mariah disse...

Percebo bem o que dizes, quantas vezes não me sinto num mundo à parte (e cada vez estou mais anti social). Quanto ao futebol, até já gostei, o meu marido é um benfiquista assumido e gosta de futebol, embora cada vez veja menos jogos. Desde que o meu filho nasceu, deixei de ver jogos, não acompanho e não tenho o mínimo interesse no assunto. É curioso que quando há pouco tempo pensámos numa actvidade para o miudo, tanto eu como o meu marido "torcemos" o nariz ao futebol. Não é preconceito, mas acho que é uma actividade física que não lhe trará garndes benefício (contrariamente ao judo), para além de não estar preparada para passar as minhas manhãs de sábado em treinos. Mas sei que ele gosta de jogar e se um dia nos pedir (muito) lá o inscreveremos.
Beijos

patrícia disse...

Acho que fazes muito bem. Quem sabe ele depois não gosta e mais tarde se vire para a escrita ;)
Aqui em casa felizmente não entra futebol. O Marco (meu marido) não gosta. Mas também não gosta de ler, coisa que eu adoro. Mas a minha Carolina sai a mim nesses aspeto!
Tenta encontrar algo que ambos gostem muito. Um dos exemplos aqui são as séries. Adoramos ver uns episódios juntinhos, quando as miúdas já estão a dormir.
Ânimo :)
Beijocas